Tradução

Este é o meu espaço livre na MATRIX, onde posso depositar as emoções (e ilusões) da (minha) vida e brincar de jornalista, crítica, prêmio nobel da literatura... Escrevo não só por necessidade, mas também para entender o porquê, dela, de pensar o tempo todo, e de tantas palavras, tantos textos nascidos semi-prontos pedindo para gritar. E aí, quem sabe, alguém lê e me explica por que eu, e não só eu, com medo de ser decifrada, preciso tanto de tradução.



domingo, noviembre 30, 2003

FUVEST

Eu fiz 60 pontos na FUVEST!!!! Fiz 60 pontos!!!! Não tenho palavras, não sei concatenar ideía nenhuma, depois de esvaziar o cérebro em 100 questões, conferir o gabarito, gritar, ligar para a Cris, gritar porque ela fez 70 e, se tudo der certo, também vai para a 2º fase, sair correndo pelas ruas, vir aqui e me dispor à três horas ne internet.

O ano passado a nota de corte para o meu curso foi 58. Se não aumentar nenhum pontinho (ai Santo Protetor dos Vestibulares, me ajuda), eu vou para a 2º fase!!!! Yupi, yupi!!! Muito louco. Essa noite dormirei com Sófocles. São 15 livros em 30 dias, eu consigo, eu consigo.

Então, como estou na busca dos templates, como o blogger está mais instável do que mulher com TPM, e eu, mais feliz, do que poderia imaginar, fico por aqui. Inaugurando uma fase de pequenos posts. Tenho textos aqui dentro, mas estou feliz demais para me concentrar em um parágrafo não intercalado com a frase: 60 PONTOS NA FUVEST!!!!! 60 PONTOS NA FUVEST!!!!!

Comments: postado por: Romy Trinity9:30 PM


martes, noviembre 25, 2003

QUESTÕES TÉCNICAS

Além do vestibular, agora tenho um novo desafio: mudar o template desse blog. Eu gosto dessa cara que ele tem, acho que o fundo claro não cansa tanto para ler, e que tem tudo a ver comigo, mas, tem uma coisa que está me injuriando. Estou cansada de ter que ter na cabeça o endereço de todos os blogs que entro.

O problema não é saber os endereços, que isso é seu, o problema é que chega uma hora que eu já não lembro mais os que já entrei, e os que ainda não. Sem contar que se ficar um dia sem entrar em um, esqueço no dia seguinte e quando lembro, tem quase um livro todo para eu ler.

Aí que estou garimpando a rede atrás de templates legais, mas os do MATRIX, são todos pretos e poluídos. O únido que tinha a minha cara, com uma foto perfeita da Trinity, eu esqueci de onde tinha puxado, mas vou encontrar. E eu quero eu mesma fazer. Até poderia pagar R$10 pra fazerem um do jeitinho que eu quero: laterais pretas, perfil e blog na esquerda e a Trinity na direita, com o meio na cor que está e o desenho da malinha com nome e descrição do blog em cima. Já estou vendo que vai dar trampo, mas vou conseguir. Afinal, não sou eu quem quer fazer processamento de dados? Mãos à obra!

E eu que pensei que fosse incapaz de fazer um post curtinho.

Comments: postado por: Romy Trinity9:55 PM


lunes, noviembre 24, 2003

ENFIM, POST.

Nem acredito que vou conseguir escrever. Depois de imaginar mais de 15 títulos, escrever mais de 20 parágrafos, apagar tudo e de deparar-me com o sempre bem-vindo "Desculpe o transtorno, estamos em manutenção" incontáveis vezes, finalmente posso escrever!

Hoje eu li A hora da Estrela, da Clarice Linpsector, e gostei muito. Aliás, depois de lê-la, vou poder economizar algumas palavras, porque ela escreveu coisas que eu queria há muito escrever e não sabia como em um só texto. É verdade que tem umas coisas que eu não concordo, como a teoria de que o mundo sempre existiu, como a Áurea tão bem me explicou no Rio. A simples possibilidade de não haver um começo simplesmente me aterroriza. Se tudo sempre existiu, se não há o começo, então minha busca é vã e minha vida sem sentido. Mas sei que não é assim. Houve um começo, há um motivo, há um destino (um lugar para chegar), e mesmo que eu morra sem entender, não significa que não há, e sim que eu não descobri.

Claro que essa certeza não impede que eu me confunda sobre por onde começar meu relato. Voto pelo começo linear, e prometo tentar ser o mais sucinta possível. Tá, pode rir. Foi uma piada.

Da última vez que estive aqui era uma quarta feira e o sentimento mais forte em mim, era um misto de inconformação com a morte da Trinity, não a minha, a dela, minha inspiração, mas não minha essência, e uma expectativa incontrolável pela viagem à prainha. Depois da quarta, veio a quinta, e veio a sexta. E eu embarquei rumo ao meu repouso juvenil. Prainha Branca.

A palavra de ordem desta vez foi Evolução. Evoluímos e gostamos de evolouir. Pouca bagagem, montamos a barraca sozinha (quase), pensamos e conversamos bastante, apresentamos nosso recanto a mais uma amiga, estive um pouco menos tímida. A evolução foi temperada pelas novas experiências, como o suco de cupuaçu, inédito e que mostro-se maraviolhoso. O sabor perfeito para tardes chuvosas e noites quentes. Da parte da minha amiga, ela experimentou a sensação de saber-se possível de gostar de outra pessoa além do seu primeiro ex-namorado. Da minha parte, o gosto amargo de gostar da mesma pessoa que de uma de suas melhores amigas. O gosto é amargo mesmo, e a vontade de se jogar no mar, ou nos braços do primeiro mortal que passe parecem incontroláveis. Mas não são. Eu posso me controlar, e tenho a ajuda da Lua, como sempre, minha mãe querida ali velando por mim, fazendo-me sorrir quando eu pensava ser possível apenas chorar.

Da chegada, do acampamento, do mar, do sol, tudo bem. Os detalhes, quisera eu poder narrá-los, mas se tornaria cansativo até pra mim. Foi um filme maravilhoso e contando não poderia passar as cores dali com fidelidade. Digo apenas que nos fez companhia, ótimo som, risadas, um clima de galera, que há muito sentíamos falta, um pessoal de Jundiaí, super gente fina, entre eles, integrantes da banda Mandagua e/ou Ralaquexo. O pouco que pudemos ver, os caras mandam bem mesmo. Além de serem muito simpáticos também. Ah, e a gente aprendeu o que é panguar e ursar. Um é brisar, o outro, dar um de talarico. Códigos da MATRIX. E, acrecento, para quem quiser rir, que Murphy também foi. E choveu na sexta, fex frio no sábado e um puta sol no domingo, dia de ir embora claro.

A parte boa da história é que meu irmão e meu pai, que é branco e não pode com o sol, foi no domingo (já que eu tinha dito que estava o maior frio) e me encontrou no camping, sem combinar absolutamente nada. Ele andou pela estradinha que leva à praia gritando meu nome e eu o ouvi exatamente na hora que tinha acabado de ler a mensagem dele dizendo que vinha. Foi muito louco, ninguém botou uma fé, e eu adorei, gosto quando meu pai pode se divertir do jeito mais sagitariano, como sempre foi, antes da minha madastra lembrá-lo que ele é um adulto, que tem responsabilidades, que depois o sol queima, que tem que voltar pra casa e dar comida para os cachorros...

A outra parte marcante foi o lance da Cris, minha amiga. Na última noite, ao olhar para o céu, resolvemos formalizar nossos desejos. Isso deveria ter sido feito na primeira noite, mas não foi. Ela não sabia ainda se queria ficar com alguém. Eu queria, beijar é uma das poucas ações que limpam totalmente a minha mente. E, por ser algo raro e difícil de conseguir, ficar sem pensar, por um segundo que seja, tem sido objeto de desejo há muito tempo para mim. A questão é que essa minha amiga não conseguia imaginar-se gostando ou beijando outra pessoa que não o ex-namorado dela. E isso me parece terrível. No primeiro dia localizamos o bonitinho. Bonito mesmo, uns olhos claros que me faziam mergulhar. E nós temos uma queda por loiros e olhos claros. A vantagem que ela estava traumatizada pelo tipo, e eu, não. Na primeira noite descobrimos que o Bonitinho só tinha um objetivo enquanto estivesse ali: fumar. E na falta desse, beber. Pra ficar com ele só fantasiada de cigarro de maconha. Aí, desencanei. Aproveitaria a praia, uns fumam, outros nadam, a vida é assim. Mas, esse mas que sempre me acompanha, nesse meio tempo, nos começamos a reparar nele. Não era uma beleza de derrubar o sorvete, mas tinha uma graça, um sorriso, um jeito de falar, e um olhar. Meu Deus, o que era aquilo, dava para ficar a vida toda só olhando aqueles olhos castanhos, era, assim, emudecedor. Beber, bebia, mas até quando bêbado era fofo. Eu vi e me encantei, mas calei. Ela viu também, não sei se antes, depois ou junto comigo, mas falou. Falou, sob e para o céu da segunda noite, começando a estrelar, que queria ficar com ele. E só se fosse com ele. E ela disse com todas as letras. A Elisa, que chegou no sábado, escolheu o dela. Claro que não foi nada solene como eu pinto aqui, foi entre risadas e sorvetes, mas foi assim. E na minha vez, já com o punhal no peito, num riso que sei fazer muito bem, que então eu queria o bonitinho, dos males o melhor (mental). Salientamos a Deus, com quem na verdade conversávamos, que o pedido principal era passar no vestibular, e se fosse possível, os outros. Finalizamos a hora dos pedidos e fomos para a praia.

Aí veio a fotografia. Eu estava do lado do bonitinho, ela estava ao lado dele e a Elisa ao lado de outro, que não o escolhido, mas não pareceu não gostar muito, apesar que eu acho, que a Elisam por quem eu tenhgo um carinho muito grande, precise dar uns gritos. Tenho a impressão que ela tem uma represa presa dentro dela, e a qualquer hora pode explodir destruir barreiras. Mas também pode ser só o meu problema com quem fala baixo. Naquela fotografia, absurdamente nítida pra mim com o verde do sorvete de menta dando o tom, tudo parecia dar certo. Eu esqueceria tudo num beijo, a Elisa talvez gritasse, de outra forma, o que tinha preso em si e a Cris espantaria os fantasmas. No instante seguinte, acabou. Fatos e acontecimentos desmancharam o encanto. E, durante tudo, emu coração parecia ser esmagado contra o meu peito. Não sou incapaz de trair, mas quando se trata das minhas amigas, sou muito mais que incapaz. Foi terrível.l Caminhei uma vez solzinha até a barraca, e lutava, durante o curto caminho, para nãol me lançar no mar ou nos braços de qualquer um. Foi uma caminhada dura, sofrida. Então lembrei-me que ali, naquela hora, eu era a Morgana. E resolvi, como a Morgana, enfrentar o fato de que Lancelote não seria meu.

E não foi. Num dado momento, eu, a própria Morgana, ouvi o grito da Cris. Uma estrela cadente! E olhei para o céu. E vi. A Lua, minguante, amarela, nascendo. Aquilo lavou minha alma. Eu não me importo se alguém não vai entender. Eu escrevo o que quero, esse blog é meu. Ao ver a Lua, ao ver que ela havia atendido ao meu pedido secreto, de vë-la nascer no mar. Ao vê-la subindo, brilhando, estendo sua luz do mar até mim, falando comigo, eu me senti, num turbilhão indescritível, filha da terra. A paz, a sensação de ter um lugar no mundo, que senti ao me descobrir uma bruxa, voltou, firmou-se no meu ser. E eu soube, que tinha o meu próprio destino, futuro, caminho, nas minhas mãos. E teria, se quisesse, consciente das leis que me governam, até o poder se tê-lo por aquela noite. E eu sorri, mãe, naquele momento, ao ver sua face, eu me levantei, e de pé, assiti o espetáculo que me proporcionaste, e que era contínuo, e que se de noite há lua, de dia há sol, porque os deuses são um só, e podem ser vistos como quiserem, e que são inalteráveis e cumplíces, porque são um,l nunca serãol inimigos. Mãe, eu vi que não h'la guerra entre ols deuses, só os homens são tolos e ainda crianças para brincar de guerra santa. Mãe, naquele momento, eu sorri, e três lágrimas escorreram, e tudo que me oprimia se foi, e eu desejei, sinceramente, que a Cris pudesse ficar com ele. Porque eu sabia que o amor nunca atrapalha a lenda pessoal, e que o amor, como os deuses, não concorre com outros sentimentos, porque são todos os mesmos. Eu sorri mãe, e vc me disse apenas, que a lei estava ao meu lado.

A alegria que me invadiu foi tão intensa, que convidei as meninas para passear, e vi, pela ação da Cris, que algo estava errado. E ela me disse que ele estava ficando com outra menina. Eu disse, sem saber que estava certa, que a menina devia ter agarrado ele. E ela me perguntou o que tinha dado errado, já que os nossos pedidos sempre eram atendidos. Eu expliquei que achava que era porque pedimos no segundo dia, e depois, me corrigi, e lembrei da lei dos pedidos: não se pode desejar outra pessoa. Ela entendeu, e eu falei que o vestibular daria certo. Saímos caminhando, eu estava muito feliz, escrevi na areia, tirei a blusa, saltitávamos a beira mar. Num certo momento, a Elisa comentou que eu estava parecendo a Morgana, naquela hora. Foi muito louco. No fim, um cara quis ficar com a Elisa, mas não deu certo. Dormimos só nós (como se coubesse um só numa cabana para três com três pessoas dentro), eu dormi super bem, acordei feliz, tomei banho e encontrei meu pai. A prainha sempre me traz um crescimento. Sempre.

Na segunda, olhei na net e... PASSEI NO VESTIBULAR!!!!!!! Pode falar que foi para uma faculdade particular, que filosofia é curso de desocupado, que todo mundo passa. Aliás, ouvi isso de todo mundo, e não dou a mínima. Estou feliz pra caramba. Reserva de vaga feita, vou sossegada para a FATEC. Eu disse que tudo daria certa e que eu era dona do meu destino.

Passada uma semana, domingo último, show do Cidade Negra no Ibrirapuera. Tudo de bom. Nunca tinha ido num show noturno no Ibirapuera. Dancei muito, muito, nada como dançar algo que não tem jeito certo de ser dançado. Quase no fim, um cara, por insistência total, conseguiu ficar com a Cris. Eu estava tão a pampa com o show, que nem estava me preocupando com esse assunto. Três músicas para o fim, um cara, Charles, veio, dançou comigo, e encerrou-o com um beijo. Depois outro. E depois fomos embora. A Cris durmou lá no ap, comemos pizza as duas da manhã, conversamos até as quatro. Ela disse que o Charles estava muito loco, bêbado ou coisa assim, eu disse que sim, afinal ele disse que se encantou comigo, mas não deu pra sentir o gosto, não. Rimos e durmimos.

Moral da história? Eu posso ter dias entre os grandes dias, mas também tenho grandes dias entre os dias. Todas nós conseguimos. A Cris conseguiu gostar e beijar outro caro além do ex. A Elisa, ao viajar conosco, rompeu grandes barreiras dentro de si. E eu, viajei para a prainha, beijei alguém e limpei a mente, e de quebra, ao lavar a canga, achei um pedaço da corda do violão dele, como souvenir da viagem para dentro de mim.

Comments: postado por: Romy Trinity7:53 PM


jueves, noviembre 13, 2003

A MORTE

Já vou avisando que vou contar detalhes do MATRIX REVOLUTIONS. Se vc não assistiu o filme, não ultrapasse esta palavra. E, caso você ouse mais uma frase, saiba que minha injúria é real, não só com o Matrix, mas também pela conclusão que cheguei no metrô e pelo mundo mesmo. E só para desestimular, aviso que esse post é extenso, porque a vida foi feita para ser gasta.

Antes, o crime. Crimes não me assustam, nunca me assustaram, não tenho medo de sair nas ruas, nada disso, vi cenas de crime desde muito jovem. Meu pai é fotógrafo e temos em casa um álbum de fotos. Fotos de acidentes de trânsito, de assassinatos e coisas assim. O álbum fica ali, na estante, ao lado do das fotos do casamento e de quando eu era bebê. Ao alcance das mãos, para não ser algo proibido. Eu vi. Não gosto de ver, mas posso manuseá-las sem problema algum. Quando éramos crianças fomos ao Museu do Crime. Não lembro se meus irmãos foram, lembro que a mulher não queria deixar a gente entrar. Acho que só a minha irmã foi. É, não lembro mesmo. Mas a mulher, a mulher não queria deixar a gente entrar, a idade mínima era 14 ou 16, e eu, com certeza, embora não lembre agora quantos anos tinha, não estava perto disso não. Não lembro das datas, nem da minha idade, lembro que eu fui e meu pai estava junto, para mim é suficiente.

Ele, meu pai, explicou que tinha ajudado naquele museu, e que a gente já tinha visto as fotos - verdade, são as fotos do álbum, e a mulher deixou, mas ele assinou um termo de responsabilidade. Entramos. E naquela época, não era tudo separadinho como é agora, dizendo onde tem as cenas dos crimes piores. A única sala identificada era a de hermafroiditismo e crimes sexuais. Aí, eu fui andando, atrás do meu pai, e de repente, eu estava de frente para uma reconsituição em cera do crime da mala. Um crime brutal, e a mulher e seus pedaços de perna, braços, reconstituído fielmente em cera. Eu lembro do cheiro, da luz, me dá até um frio na barriga, um pânico mesmo, e minha visão ficou parada ali, naquele dia. Sei que fomos passear, mas não lembro onde, eu só via a mulher em pedaços na mala, com aquele cheiro de mofo e prédio velho. Sonhei com a mala. Por uns tempos, depois passou.

No segundo ano do colégio, fomos ao necrotério da UMC com a professora de Anatomia e Fisiologia Humana, eu fui com toda a pompa, falando que eu já tinha visto foto de morto, e isto, e aquilo, e fazendo o maior barulho. A maioria das pessoas foram quietas. Elas voltaram fazendo barulho, e eu voltei em silêncio. Chegando ao necrotério, não senti cheiro algum, e isso já não era um bom sinal, já que todos falaram do cheiro. Entramos, numa mesa, um homem branco, que pela ação do formol estava amarelo, meio cor de cortiça. Na outra mesa, uma mulher, gorda, com a pele meio negra, meio marrom, o cara da universidade disse que aquele cadáver era mais velho e que não se lembrava a cor mesmo da pele dela, mas o formol a deixou assim, uma cor de pele queimada, não era o negro brilhante, bonito, dos negros, era uma cor feia, de quem não toma banho há muito tempo e é queimado pelo sol. A cena, do professor simulando um corte (ela já estava toda cortada) e mostrando a gordura, embaixo da pele, foi horrível. Próxima sala, só os pedaços. Numa bandeja, cortes assim e assado da cabeça. Na outra o coração. Na outra, corte assim e assado da perna, intestinos, genitálias. A professora pegou o coração, também com aquela cor de carne cozida, e com os dois dedos mostrou a elasticidade da aorta e como ela era grossa. Depois apontou e mostrou a elasticidade dos esfincteres, e nos mandou manusear os pedaços, para sentirmos o que era rim, fígado, cabeça, pulmão, e ela não ter mais que ler anomalias nas provas. Eu não ia tocar em nada, passei rapidamente pelas bandejas, mas ela, ela me viu, e quando eu estava na última bandeja, justo a do crânio, lá veio ela, e como eu gostava dessa professora, ela que me ensinou o caminho para o a felicidade mais genuína, o prazer incomparável de entender o ciclo de Krebs, ela veio e perguntou o que estava achando, "legal", se ainda queria ser médica "claro, médico cuida de gente viva, professora, eu só não gosto dos mortos", e se eu tinha manuseado os tecidos, "claro", então mostra para mim o caminho do não sei o quê do olho, nesse corte frontal. Eu apontei, o olho tá aqui, o nervo vai por ali... e ela pega o meu dedo e encosta naquele morto. Tá, deduzi, mesmo sem nunca ter estudado, tudo o que dizia direito a olho e qualquer outra coisa que tinha naquela cabeça, retirei das minhas entranhas conhecimento que eu nem sei da onde, em dois minutos, passei o dedo ali, terminei, dei um sorriso amarelo, e saí.

Como Murphy existe, em casa tinha carne moída para o almoço. Não comi, claro. Não comi carne por um mês inteiro. Não enconstei em ninguém de pele morena. Não olhava para os indigentes, porque eles lembravam os mortos e eu sabia que muitos deles poderiam parar lá. Não fui visitar minha avó, tios, primos. Fiquei com medo de todo e qualquer afro descendente. Sonhei com a faculdade de medicina, com as aulas no necrotério. Sonhei com as fotos que vi do Dinho, dos Mamonas Assassinas, e a visita trouxe o que eu tinha conseguido enterrar bem no fundo. Desculpe, eu posso ter visto as fotos, mas eu não acredito que eles morreram. Não ali, não daquele jeito. Não despedaçados. Não de forma inexplicável. Direitos são direitos. Se Elvis tem o direito de não ter morrido, os Mamonas também têm. Não quero saber, não quero ouvir. Eles não morreram, eles estão escondidos em alguma bocada em Guarulhos, mas eles não estão mortos. Jovens não morrem!

Mas eu falava do crime, leio sobre crimes, ouço sobre crimes sem curiosidade mórbida. Ouço e esqueço, não quero saber mais. Não sou investigadora. O único "crime" que eu queria investigar, junto com a Scully, era o do morto cheio de sangue que a gente viu, mas o caso não ficou com a gente, e se ficasse, duvido que me (nos) deixariam, acompanhar, ir a fundo como se deve. Só pra falar do ensanguentado, foi o primeiro morto "fresco" que vi. Não sonhei com ele não. O único problema foi o cheiro do sangue. Não saia. Eu lavava o rosto, lavava a mão, e sentia o cheiro o tempo todo. Um cheiro que vai até o estômago, que, ainda bem, estava vazio. Cheguei em casa, pus tudo para lavar, lavei o cabelo, fui andar no minhocão, dormi. No dia seguinte, contei ao meu pai, ele mandou eu acender uma vela e tomar banho com um sabonete especial que ela tinha me dado para dias de plantão carregado. Tomei o banho, acendi a vela, acendi incenso, dormi, acordei e sorri ao constatar que as formigas adoraram o sabonete, alívio. Passou também, mas que a gente ficou com a pulga atrás da orelha com aquele morto, a gente ficou, né não, Scully?

Sim, tá, mas o crime. O que eu queria falar sobre o crime, é que eu sempre me senti segura. Não tenho posses, não tenho a beleza de Afrodite, acredito no juramento, que considero meu também, das guerreiras mercenárias de Darkover, sempre estive atenta, e além do mais, sou de áries, tenho sorte, e Deus é meu amigo, então beleza. Não penso sobre isso, é caso resolvido. Mas o assassinato dos dois jovens em Embu Guaçu, mexeu comigo. Primeiro, porque eu gosto de acampar, e acredito que o direito à liberdade é inviolável. Segundo, eu não sabia que Embu-Guaçu era perigoso. Terceiro, e determinante, é que foi um crime sem razão. Sem razão nenhuma. Eles mataram a garota. Eles mataram o garoto. Assim, sem roubar nada, sem exigir nada. Matou porque deu vontade. PUTA QUE PARIU! É só dar vontade e se sai matando assim? Rico, pobre, homem, mulher, bonito ou feio? Todos e qualquer um? Eu não acho que deva importar não, só estou falando da falta de motivos.

Depois da publicação do crime, eu coloquei-me a verificar as possibilidades, e não vi saída. Se ela tivesse dito a verdade e fosse, teriam morrido. Se os pais tivessem dito sim, logo de cara, e ela fosse, teriam morrido. Se tivesse ido 100% escondido teria morrido. Só se não fosse. Mas como não iria? Por que não iria? Cidade do interior, sítio abandonado, barraca, miojo e bolacha, vai e volta de ônibus, amando, sendo amado, acreditando no amor, não ir por quê? Nós somos jovens! E livres! É nosso direito desbravar o mundo, nadar na cacheira, comer miojo cru, dormir em barraca furada, banho frio na praia, dormir junto longe dos pais, descobrir a natureza, acordar ao som dos pássaros, ao invés de britadeiras e buzinas, descobrir a convivência, longe da rotina e da paranóia, sentir a natureza! Poxa vida, é nosso direito! Se a gente não pode nem isso, a gente pode o quê? A gente vive pra quê? Para ficar que nem formiga, trabalhando no verão e escondido no inverno? Porra meu! Pra quê tudo então? Êta vida besta, meu Deus!!!

Aí vem o Matrix, e minha injúria aumenta. A Scully é testemunha. Mataram a Trinity! Mataram a Trinity! Por quê? Pra quê? E mataram ela de forma besta também, no pouso da nave. Péra aê, se ela tem que morrer, porque o Nêo não volta da briga final com Smith, por quê não matá-la com honra? Na guerra? E mais, por que separaram os três? Por quê o Morpheus não foi junto? Tá certo ele é um capitão tem que prestar contas, concordo. Mas matar a Trinity, não. Não, não. Chorei, quase de soluços. Eu sabia que ela ia morrer, porque tinha lido no blog do Cedric. Eu sabia, mas não acreditava. E, se acreditava, acreditava que seria em batalha, dando cor, outra cor, à busca do Neo. Mas não, a morte dela ali, daquele jeito, com ele cego, de olhos vendados, e ela morrendo sem poder ver os olhos dele, ele sem ver os olhos dela, só porque estava sem cinto, dizendo que morreria e que estava tudo bem. Tudo bem, o quê? Para quê salvar a humanidade, se ela não está lá? E ele foi, cumprir a missão, com o último suspiro dela na boca.

Pra começo de conversa, Matrix Revolutions o caralho. Não teve revolução nenhuma nesse filme, o que tinha ali era um monte de humanos, escravos das máquinas, lutando contra máquinas. Acuados e só. Três líderes, uma nave, tendo que chegar a Zion, pra fazer porcaria nenhuma também e depositar a esperança de um milagre num messias cego e dilacerado. O ideal do amor foi morto num acidente idiota, sem necessidade. E ninguém venceu a guerra, ela só foi adiada, quase como numa cópia fiel do exterminador do futuro. Tudo, três filmes, pra dizer que o futuro pode ser adiado, mas nunca evitado.

A Trinity é a mulher ideal. O meu ideal. Ela pensa, ela age, ela decide, ela ama. E uma coisa nada tem a ver com a outra. O amor deles é perfeito, como numa orchestra afinada. Eles não dão beijos burocráticos. Eles se abraçam. O amor deles não é a mola da revolução, não é o motivo de tudo, é parte do mundo. Eles não querem salvar o mundo porque se amam. Eles não se amam por quererem salvar o mundo. Eles querem salvar o mundo e se amam. Simples, perfeito, melódico. Para mim, a cena perfeita de amor, que fotografa o meu ideal de amor, é a cena do elevador, no filme dois. Eles descem da nave, saúdam os que estão em Zion, conversam com quem tem que conversar, decidem o que têm que decidir, e juntos, não de mãos dadas, cada um carregando a sua mala, observe, ela carrega a mala dela, ele carrega a male dele, entram no elevador. A porta de fecha as malas caem e eles se juntam e se beijam. Um beijo lindo. As bocas se encontraram com uma perfeição, num encaixe combinado. Os corpos unidos, entregues ao amor e não lascivos ao ato sexual. Não foi uma cena sensual, foi uma cena de amor. Duas pessoas, distintas, com personalidades e destinos únicos, se unem, se amam. Música, perfeição. E depois de criar isso, os irmão Kupruchinki, destroem isso. Assim, acabou tá acabado. Ah, fala sério!

Ao matar a Trinity, eles mostram que estão, na verdade, do lado das máquinas. O filme não mostra como as máquinas são más. O filme mostra como o ser humano é burro, é frágil, inventando o que não podem controlar. Como fizeram com as máquinas, como fizeram com o amor.

O final do Matrix, o filme um, é a esperança. Nós libertamos o enviado, nós temos um grande capitão, nos não sucumbimos à traição, nós podemos ser livres. E o amor salvou a vida do enviado. Esperança. Podemos sair da nossa própria escravidão, desde que prontos para sermos libertos. O amor ressuscita o enviado. O enviado libertará os homens!

O final de Matrix, a trilogia, é o nada. O inevitável. Neo criou Smith no filme um, mostrando a ele como se copiar, como se libertar. Neo transformou um programa onisciente em um vírus onisciente. Ele destruiu o Smith como agente da Matrix, e o criou como inimigo pessoal. No filme dois, ele escolhe salvar a Trinity a salvar o mundo. E descobre que ele, não é o enviado, é o escolhido. Ele não foi enviado por ninguém, ele é uma falha na matrix, e, dentre outras falhas que certamente existiram, foi escolhido, achado por Morpheus, fortalecido pela Trinity, tendo a chance de fazer a escolha certa. O filme dois, deixa a sensação de que a Escolha pode salvar o mundo. Aí, no filme três, tudo desaba, ao sair da Matrix, Smith torna-se um perigo maior que a própria Matrix. Smith, grita, escancara, o que o homem tem medo de ouvir. Surgimos do nada. Iremos para o nada. Se o nada é o fim, então levarei tudo ao fim e reinarei absoluto no nada. Ele é um programa, não sabe que não tem graça reinar sobre o nada. Ele é um programa, quer o fim da guerra, e não a paz. A morte da Trinity mostra que o amor de nada adianta. Não faz a menor diferença. Ela morre, a guerra continua e Neo tem que seguir adiante. A cegueira de Neo, enxergando a energia das máquinas, talvez tivesse a pretensão de fazer uma alusão à Justiça, mas para mim, significou, mais uma vez, que não havia diferença. Alguém criou o homem, o homem criou a máquina. Não há diferença. Só Neo pode acabar com Smith, voltando ao início, só a Matrix pode acabar com Neo. E isso acontece, Smith morre. Neo fica ali inerte e é recolhido pela máquina. Acabou. E a guerra em Zion? Não acabou. Houve trégua. Acredito que as máquinas mantiveram Zion, porque seria útil no caso de acontecer de novo. Ou não. É só uma questão de tempo. Do arquiteto explorar as possibilidades da equação.

Os homens criam as máquinas, as máquinas criam a Matrix, a Matrix cria Neo, os homens libertam Neo, Neo invade e cria Smith, Smith ameaça a Matrix, Smith invade e mata, ou se mescla a, Neo. A MAtrix mata, ou deleta, Neo e Smith. Há a tregua, adia-se o fim. Mas os homens continuam escravos das máquinas. Tudo continua na mesma. O homem não escapa ao seu destino.

E eu, injuriada e inquieta na cadeira do cinema, em lagrimas ao me ver assassinada, saio do cinema com a sensação de que o mundo é assim mesmo. A gente não vale nada nessa vida. Os sentimentos nobres não valem tanto assim, porque a morte, a morte é inexorável. De nada adiantou aqueles joven desejarem apenas liberdade. De nada adiantou os anos que os pais, dele e dela, passaram trabalhando, dando tudo para ver crescer os filhos, depositando neles a esperança de um mundo melhor. De nada adiantou o amor absurdo, abismal que une pais e filhos. Eles estão mortos e os pais terão que viver com isso. De nada adiantou a Trinity amar tanto o Neo a ponto de tirá-lo da morte uma vez, para salvar o mundo. De nada adiantou Neo amar tanto a Trinity, a ponto de roubá-l também da morte, ao invés de, teoricamente, salvar o mundo. Ela está morta, ele foi deletado e/ou invadido. Acabou. O amor não salva.

Quer saber? Se eu não fosse a Trinity, eu seria o Smith. E acabava com tudo. Mas eu sou a Trinity, e faria tudo de novo, pois o mais importante é o momento, é a vida agora. Mesmo com a morte ela agradeceu por todos os momentos que construiram juntos. E acredito, que aquele casal, lá onde estão, devem estar felizes por todas as vezes que decidiram viver o agora, tentar o amor, construir a esperança, porque ao partirem, isso ficou. É mãe, foi o que eu aprendi com a sua partida desse mundo, mesmo sem lembrar, quando eu era pequena demais. Eu vivo o agora, porque eu não sei quando eu vou te encontrar.

PS: O Museu do crime fica na Praça Reynaldo Porchat, s/n - Cidade Universitária - São Paulo/SP, na Academia da Polícia Civil e horário de funcionamento tem no site www.policia-civ.sp.gov.br

Comments: postado por: Romy Trinity3:08 PM


lunes, noviembre 10, 2003

Eu odeio perder um texto. E só

Comments: postado por: Romy Trinity8:53 PM


Eu odeio perder um texto. E só

Comments: postado por: Romy Trinity8:53 PM


domingo, noviembre 09, 2003

TODO MUNDO ESPERA ALGUMA COISA DE UM SÁBADO À NOITE...

Eu tive uma tarde tão agradável e um começo de noite tão bom, que não deveria esperar nada de um sábado a noite. É verdade que eu deveria dizer, "que não espero mais nada desse sábado...", mas fazer o quê se eu espero que o estagiário lindo daqui do cyber me chame para ir ao cinema, que tenha um nerd lindo no computador atrás de mim, que um cara maravilhoso trombe comigo agora, ou que eu encontre um cara. linod, maravilhoso, encantador, amanhã depois, repito depois, da prova da São Judas.

É, amanhã é a primeira prova da minha maratona de vestibular, e por isso esse post pretende ser curtinho. Eu entrei para escrever três coisas apenas.

A primeira, é que passei a tarde toda com a Scully e com a Alê, elas vieram conhecer o ap, eu fiquei contente. Diria em paz. É bom estar com amigos, com pessoas que se quer bem, que estão além as convenções sociais. A gente ficou um tempo no apartamento da Alê e foi igualmente confortante. É bom ter amigos, sabia? Acho que é mais importante do que ter um namorado. É acho que sim. E depois, à noite, fui ao teatro Martins Penna, na Penha, assistir uma peça de Brecht. nuncatinha ssistido uma peça inspirada nesse autor, e concluí que a cultura latina realmente é diferente. Principalmente do ponto de vista da estrutura das emoções. Brecht, Becket e Goethe, parcem não ter o sangue fervendo, aquela sensação de meu mundo vai acabar, do dane-se o mundo, ele acabou porque vc se foi! Mas acho legal que eles se preocupam com o futuro da nação e coisas assim. A sociedade ou o indíviduo? É o que me pergunto agora.

A segunda coisa é que descobri que esse lance de estudar, de parar tudo para estudar para o vestibular, de sentar e ficar lendo matéria que eu já li antes, foi uma tentativa ridícula de ser quem eu não sou! Eu não sou de estudar, sou de aprender! Descubro isso agora, mas fifo feliz por ter tentado e descoberto por mim mesma que aprendendo coisas novas estarei bem mais preparada para o vestibular do que martelando conceitos que já estou cansada de ver! Nada como a liberdade. nada como descobrir que de repente, apesar de aboslutista, não sou extremista e não posso ficar nessa de considerar minha palavra irrefutável. Eu posso voltar atrás, eu posso a´té andar em círculos as vezes. O que me importa é não ficar parada. E sempre aprender. nem que seja sóbre mim mesma.

E a terceira, mas não menos importante, é que minha amiga Scully está montando o blog dela. O endereço é www.kat-scully.blogspot.com Não vou por como link, porque quero que as pessoas que a visitem vão por livre e espontânea vontade, e não pelo reflexo de clicar em tudo que vira mãozinha... Desejo que ela possa ser tão livre no blog dela o quanto eu sou no meu. Acho isso o mais importante.

Bom, eu vou terminar aqui, porque amanhã é dia de prova!

Comments: postado por: Romy Trinity1:08 AM


viernes, noviembre 07, 2003

Escrevi esse post na quarta - feira, mas ele ainda está super atual, porque eu nunca sei se vai cair uma bomba na minha sala...

MURPHY E A SOCIEDADE PROTETORA DOS ANIMAIS


Estava eu no meu apartamento, depois de voltar do mercado, ouvindo a discussão sobre a Alca na TV Cultura, picando batata e tomate para fazer uma sopa com lentilhas ou molho de tomate, a decidir, quando ouvi um estouro. Pensei, é tiro! Ouvi as sirenes, outro disparo e não pensei: me joguei no chão!. Rastejei pelo apartamento como se estivesse nas trincheiras de guerra dos filmes, abaixei o volume da tv e fiquei deitada no meio da sala. Eu queria era ir para debaixo da cama, mas a probabilidade de ter um ataque de bronquite era bem maior, além do que a cama está mais perto da parede do lado da rua. Esperei um tempo, aumentei a TV e voltei para a cozinha.

Peguei a faca e, outro disparo "É tiro!", de novo para o chão, lutando contra a vontade de por a cara na janela e tentar ver a origem, esgueirando, abaixando a tv, esperando atrás da geladeira. Passa o tempo. Levantei, aumentei a TV e de volta para a cozinha. Piquei a batata, o tomate, e resolvi fazer macarrão. Coloquei a água na panela, a panela no fogo e eis que... acaba o gás! A porcaria do gás acabou! Eu sabia que estava no fim, mas por que o gás sempre acaba quando não dá mais para comprar outro, às 23:30 de uma segunda?

E eu, que bravamente escapei do tiroteio, tive que descer e atravessar a rua para comprar uma pizza. Até parece que ia pagar dois reais para o motoboy atravessar a rua, sendo que o risco de levar um tiro no portão é o mesmo. Cheguei na pizzaria, pedi a pizza, repetindo antes, durante e depois do pedido: sem cebola e sem ovo.

Meia hora depois, desço à selva de pedras, chego na pizzaria e minha pizza, claro, não está pronta. Alguém pode imaginar o que é estar de chinelo numa noite fria, dentro da única pizzaria aberta na rua escura, com viaturas policiais passando a toda com sirene ligada a todo momento? E eu de pé esperando a pizza. O cozinheiro, ou dono do lugar, que namorava (ou algo assim) a garçonete, chega bem perto de mim, perto demais, pra dizer que "a massa não estava boa e eu resolvi fazer uma especial só pra você", com aquele ar de "saca só como eu sou gostosão e você deve estar suspirando de emoção por eu chegar tão perto", vai atrás do balcão agarrar a garçonete, chegam uns caras com cara de roqueiro que tocam forró, depois um artista plástico com cara de hippie da paulista, com os olhos azuis mais lindos do mundo. Depois de ouvir a máxima de um dos músicos: "Só os artistas entendem a importância de uma pizza na madrugada de uma segunda feira", chega a minha pizza. Aproveito o charme barato do "gostosão", com voz de fresca apaixonada "não tem cebola nem ovo né?". Ele, para mostrar como é bom a atencioso, abre a pizza ali mesmo, e, adivinha o que tinha na pizza? Cebola e ovo, claro! Não foi isso que eu pedi? Ele diz que vai fazer outra, pergunto se eu não quero tomar alguma coisa, por conta da casa (só se for tiro, meu bem), digo que não, deixo o telefone - com a garçonete, que eu não sou trouxa -, volto para o ap a tempo de saber que perdi um documentário sobre Kafka, espero mais quarenta minutos quase desmaiando de fome, o telefone toca e finalmente vou jantar. 01:45 da manhã.

É, Murphy, quando quer agir, não há o que o segure!

No dia seguinte, acordo, saio na hora para trabalhar que o delegado está no meu pés, vou para o mesmo ponto em que peguei o ônibus no último plantão, e espero. Espero 10, 20, 30, 40 minutos! Nada! Já eram 08:10 e nada do ônibus! Ligo para o plantão, aviso que estou atrasada, vou para o ponto onde sei que passa o ônibus que eu sempre pego, e que demora meia hora para passar, e o que passa ali? O ônibus que eu espera no outro ponto! Como, meu Deus?! Como? Perguntei para o motorista se, por acaso, não era no outro ponto que ele passava, já que na outra semana eu tinha ficado ali quarenta minutos e não passou nenhum. E ele me disse que por causa das obras perto do Terminal Pedro II, o itinerário tinha mudado um pouquinho, mas todo mundo sabe que quando interditam aquele viaduto o ponto muda de lugar. Falei obrigada, e já estava nervosa demais para perguntar qual era o ponto certo.

Chego no DP, uma hora atrasada, corro, desvairada, para parecer que eu tinha chegado na hora e entregar os papéis. Mas uma das minhas funções é ler o resumo das notícias. E tinha um milhão delas, todas iguais falando dos ataques às unidades policiais. Claro que acabei entregando tudo super tarde, mas nem levei bronca, acho que ele está esperando ir juntando várias coisas para a comida de rabo ser maior e mais divertida. Entreguei o que tinha que entregar, e finalmente respirei.

E depois de respirar, lembrei do que li sobre os ataques. O governador que me desculpe, mas só um tapado pode achar que a polícia ou a população está segura quando vc paga pouco para alguém trabalhar doze horas num dia, doze horas na outra noite, não ter feriado nem final de semana, não ter equipamento - arma, colete, viatura, munição, água -, ser considerado sempre culpado, viver atemorizado com o perigo de pisar no calo de alguém e ser transferido para um lugar muito longe., e quando vc tem um código processual em que a prisão de alguém demora de três a quatro horas para ser oficializada, sem falar da burocracia desnecessária e do desperdício de papel em tempos de registros digitais. Só um idiota pode achar que a polícia tem um centro de inteligência. A polícia tem é um grupo de pessoas esforçadas que só trabalham porque gostam disso. Sabe que eu acho que ele esá sendo irônico quando dá entrevistas falando de estatísticas policiais. Só pode ser.

E além de aguentar o governador falando besteira, ainda tenho que aguentar a falta de criatividade de alguns jornalistas, que quando não têm notícias, resolvem esculhambar a polícia. Caso algum jornalista passe aqui sem querer, avise aos seus colegas do Diário Popular e do Jornal da Tarde, que:

* A polícia existe para resolver CRIME. Acidente de trânsito sem vítima, não é CRIME. Perder documento não é CRIME.
* Falsa comunicação de crime é CRIME! E muita gente, mas muita gente mesmo, chega e diz que teve os documentos roubados, quando na verdade os perdeu, só para não pagar a taxa do Poupatempo. Quem tem tirocínio policial percebe isso.
* Boletim de Ocorrência é um documento. E não um espantalho.
* Cabe ao delegado dizer se vai fazer ou não o Boletim de Ocorrência. Se ele fizer um BO e ficar provado depois que não se encaixava no caso, o delegado e a equipe de plantão são indiciados e podem ser presos.
* Muitos DP´s da cidade têm um escrivão por equipe;
* Prisão em flagrante, com um indiciado, pode demorar até quatro horas para ficar pronto;
* Prisão em flagrante de estelionato, com dois indiciados, pode demorar até seis horas para ficar pronto, dependendo da quantidade de documentos apreendidos.
* Ja houve casos de prisões em flagrantes que demoraram oito horas.
* Só para ser impresso, alguns flagrantes demoram meia hora. Fora o tempo para todas as partes assinarem todas as folhas.
* Prisão em flagrante mal feita solta o bandido e prende o delegado.
* Cabe ao escrivão fazer os boletins de ocorrências, os flagrantes e dar andamento aos inquéritos policias. Então, se há apenas um escrivão fazendo um flagrante de quatro horas, logo, o tempo de espera para fazer um boletim de ocorrência pode chegar a quatro horas ou mais;
* Colocar mais gente no atendimento ao público, minimiza, mas não resolve o problema. A questão é de burrocracia, e pessoas retrógradas que despediçam as infinitas possibilidades que a tecnologia poderia dar para melhorar o trabalho policial.
* Da próxim vez que forem fazer uma reportagem sobre o atendimento policial, que tal pegar vários dias, verificar a diferença entre as regiões, conversar com as equipes e com os delegados e ouvir o que eles têm a dizer?

Mas, noutra reportagem, no finzinho, falava que nos ataques morreu um cachorro. Um cachorro inocente que tomava banho de sol na delegacia, pensando que era mais seguro ali, foi covardemente assassinado por homens sem coração. Eu faço dele o meu mártir. Que a Sociedade Protetora do Animais tome providências! E espero que os cães do mundo se unam, e numa justa vingança à morte do pobre Totó, acabem com a cachorrada que aí está!

Comments: postado por: Romy Trinity1:58 PM


martes, noviembre 04, 2003

PS: Onde se lê meg, leia-se meg.

Comments: postado por: Romy Trinity8:48 PM


IDA E VOLTA

Eu voltei para o blog e para a internet. E voltei porque esse mundo virtual de repente encontrou o mundo real e eu descobri que um não atrapalha o outro, e que, no meu caso, tudo é uma questão de querer.

Saí porque pensei que estudaria mais, me encontraria mais, teria mais tempo para o vestibular. tudo ilusão. Continuou tudo na mesma e eu sem a internet para lembrar que não estou sozinha e que minhas paranóias não são exclusividades minhas. Tudo continuou na mesma. Só eu mudei.

Um dia eu acordei e decidi limpar a minha vida, começar de novo, antes do fim, ser nova, para que no começo pudesse ser nova novamente. O novo é a razão do meu existir. preciso conhecer novos pontos de vista, preciso de um emprego novo, de uma casa nova, de um salário novo (e maior também), de um namorado novo (mesmo que não tenha nem um velho), de livros novos, filmes novos, peças novos, começar de novo os velhos projetos, começar agora os novos projetos, tudo novo. O novo é a minha energia, mas terminar o que tinha começado é algo que acaba comigo. Tá tão velho e ter que mexer com aquilo, mas o fiz. Limpei o guarda roupa, apaguei e-mail de quem não tinha mais contato, limpei minhas caixas de e-mail - e isso demorou quase três horas, motivo pelo qual tenho que escrever em quinze minutos. E depois, decidi que vou viver a vida, mergulhar nela, viver o Carpe Diem. Uma coisa muito louca!

O insight aconteceu depois que liguei para a Áurea dizendo que não iria ao Rio. Liguei, e na volta para casa passei em frente ao cyber café, e pensei, por que não? Encontrei-a e ao Ronnie no messenger, e mudei de idéia. E fui. E deu tudo certo. A meg estava lá, me esperando, depois foi descansar que não tinha dormido nada, e uma hora depois ouço uma voz gritando na rodoviária "trinity!". A voz gritava Trinity mesmo, e não meu nome. Fui de encontro à voz e eis três senhoritas simpáticas e sorridentes! Áurea, Lívia e Angélica, que eu não conhecia, me abraçaram e saímos. Nada como uma aventura. Vi pouco do Rio, mas foi uma ótima viagem. Os deuses da chuva paulistas me acompanharam e choveu, choveu muito no Rio. Em seguida, encontramos o Ronnie e seu irmão. É estranho e diferente encontrar amigos que nunca se viu. É surreal.

Voltei feliz. Tive uma ótima cicerone no Rio (obrigada Angélica), e pensei que eu não saberia tanto sobre São Paulo. Voltei. Orgulhosa de mim por ter me dado a oportunidade de fazer algo que merecia. Ia fazer um post e voltar ao meu retiro, mas não. A vida é curta e não tem data para acabar. Eu farei o que quiser, quando quiser. É isso aí.

Eu termino aqui, porque o tempo, o tempo (do cyber) também termina aqui. Mas não o meu tempo. O meu tempo é infinito, exatamente porque não entendo o infinito. Aliás, não acredito no infinito. Mas isso, é outra história. Obrigada, amigos do quarto.

Comments: postado por: Romy Trinity8:43 PM



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