Tradução

Este é o meu espaço livre na MATRIX, onde posso depositar as emoções (e ilusões) da (minha) vida e brincar de jornalista, crítica, prêmio nobel da literatura... Escrevo não só por necessidade, mas também para entender o porquê, dela, de pensar o tempo todo, e de tantas palavras, tantos textos nascidos semi-prontos pedindo para gritar. E aí, quem sabe, alguém lê e me explica por que eu, e não só eu, com medo de ser decifrada, preciso tanto de tradução.



sábado, diciembre 25, 2004

O QUE FAZER COM O NATAL AGORA?

* Que não tenho mais 10 anos de idade?
* Que meu presente não vende em loja alguma?
* Que acredito que o Papai Noel não vai me trazer nada? (e não traz mesmo)
* Que Jesus deixou de ser um espirituoso deus para se tornar meu revolucionário preferido?
* Que acredito em outros deuses mais antigos que esse cristão e tão (in)existente quanto?
* Que a família me comove mais por lembrança e que por união? Que não temos mais tanto pra conversar?
* Que não odeio o natal mas não posso ignorar tanta gente sem casa, sem família, sem ceia hoje, nem nunca?
* Que não sou hipócrita mas tenho que ignorar tanta gente sem casa, sem família, sem ceia hoje, nem nunca ou eu odiaria a aristocracia do sentimento natalino?
* Que não sinto paz, amor, união, bondade ou caridade no mundo mas vejo que quanto menos o sujeito tem, mais ele dá? (os pobres de grana, não de espírito)

O que eu faço com o Natal agora, sem a aura de magia do cinema e sem o sentimentoo pesado da realidade? Choro? Agradeço? Desejo?

O natal e o ano novo, há alguns anos, são para mim, datas desconfortáveis. O natal, porque não é como era antes e antes era muito bom, tinha luzes, presentes esperados, conversa, barulho até as três da manhã, filme até o sol raiar. O Ano Novo, porque não me basta mais dez minutos de fogos, um abraço dos pais, dos irmãos, ir dormir. Hoje, nem a globo passa mais os filmes clássicos de fim de ano (Ben Hur, A Noviça Rebelde, O Mágico de Oz, vários filmes de Jesus, etc.).

Eu sinto falta de festa de natal. Ainda que sem perú, sem presentes, mas ainda assim, festa. No ano novo, também. O ano novo só não me é tão terrível porque sou portadora de uma esperança incurável. Eu sempre tenho esperança, e que aliada à minha ariana paixão por começos e recomeços, me fazem feliz, muito feliz por saber que um ano se acabou, e que um novinho em folha vai começar. Sinto cheiro de caderno novo. Mas eu queria aliar essa esperança a algo nunca experimentado: um beijo de ano novo. Se apaixonado, melhor. Se não, tudo bem, que faça companhia aos outros que guardo. Não que eu esteja jogando praga, mas tudo indica que esse ano, mais uma vez, não vai rolar. 23 vezes 31 de dezembro, todos a desejar. Todos a derramar uma única lágrima e depois sorrir saltitante sobre planos, viagens, desejos. Ano Novo, vida nova, yupi yupi êba!!! Ano que vem, tudo vai dar certo... É, mas quando o fim se aproxima, a lembrança, expectativa talvez, a dor, daquela única e tradicional lágrima me faz duvidar.

Mas este não é um post triste nem melancólico. É um post sincero. Porque cansei de escrever tantos "Feliz Natal" por aí. No orkut, no MSN, no celular, cartões de natal, chamadas telefônicas "Feliz Natal, Ótimo Ano Novo, Tudo de Bom, Felicidades". Embora sejam sinceros, espontâneos, involuntários até. Cansei. Odeio clichês. Então, aproveito que aqui sou livre e deixo aqui o que eu realmente quero, para mim e para todos os meus amigos no natal (que tá no fim) e, pelo menos, durante 2005:

*************** LIBERDADE E GARGALHADAS *****************

Este ano, fico devendo um texto tocante sobre o Natal. Fico devendo cartões, ligações, e-mail, torpedos. Fico devendo tudo isso, porque esse não é meu espírito agora. Eu estou cansada, conto os dias para as férias, só quero descansar. Na volta, veremos. Deixo-os aqui então com o meu mais sincero e profundo desejo. QUE TODOS E CADA UM DE DE NÓS SEJA LIVRE, LIVRE PRA SER FELIZ, PRA CHORAR, PRA FAZER BURRADA, PRA FAZER DAR CERTO. LIVRE, ABSOLUTAMENTE LIVRE. E COM A INCRÍVEL CAPACIDADE DE RIR MUITO DISSO TUDO.

Que passe o Natal. Que venha 2005. Estou preparada.

Comments: postado por: Romy Trinity5:35 PM


miércoles, diciembre 15, 2004

ACHO QUE NÃO SEI QUEM SOU...


Eu sei o que eu não sou. Eu não sou:

* Escrivã de Polícia: Pode parecer, mas não, eu não sou. Só gosto das coisas feitas direito e não tenho saco para lerdeza e/ou incompetência. Se quiser provas, leia minha carteira profissional: não tem a palavra "escrivã" lá.

* Calma e Paciente: Pode parecer,e muito, mas eu não sou. Só não gosto de dar barraco. Nem de discutir com pessoas que não me importam e/ou tem a mente fechada e acham que só a verdade delas é A verdade, A única verdade. Eu admito a existência de diferente verdades, e só. Se quiser provas, pergunte ao meu pai, meus irmãos, ou peça uma endoscopia: você verá que meu estômago, de calmo, não tem nada.

* Normal e Certinha: Tá, eu sei que parece, mas não, eu não sou isso também. É que eu não gosto de ninguém me enchendo o saco, e gosto de fazer o que me der vontade, na hora em que me der vontade, do jeito que me der na telha. Se eu não pisar no calo de ninguém, nem por a polícia atrás de mim, fica mais fácil. Ah, e eu tenho consciência, queria não ter, mas eu tenho, tá. Se quiser provas, contrate um detetive, eu faço o que é certo e norma para mim, os outros são detalhes.

* Sempre alegre: Ah, fala sério, alguém acredita nisso? SEMPRE?! Alguém acha que até quando eu tô com dor de dente eu tô feliz? Não me venha com essa de "mas você está sempre sorridente, fazendo piada, nunca responde a ninguém, nunca xinga ninguém, nunca chora em público, não reclama nem de cólica nem de TPM! Você só pode estar feliz!". Darling, se eu não tô chorando pra você, nem reclamando da minha única e pessoal vida, é porque VOCÊ NÃO É MEU AMIGO! Posso até ser um livro aberto, mas não tô em promoção por um réal numa banquinha na praça da república! Quer uma prova disso? Agora, exatamente agora, eu estou feliz, mas com um peso enorme no coração*... (ãhn? não, eu não quero ser seu amigo, pode morrer de curiosidade).

* Lébisca: Não, eu não sou lésbica. Eu sou encalhada, é diferente. Ok, as vezes parece, mas não, não eu não sou. Mesmo. Tenho certeza. Nada contra, nem a favor, muito pelo contrário. Tudo bem que eu não gosto de frescura, não tenho paciência pra comprar roupas e sapatos, quando passo maquiagem fico parecendo o bozo, não sei usar unha comprida, acredito em sexo casual, beijo de bricadeira, contato corporal desvinculado de qualquer ligação afetiva, e sempre acabo olhando quando passa uma menina muito bonita ou muito pelada. As bonitas é por uma curiosidade (quase) invejosa: queria saber como é pra elas, ser tão bonita, e ainda assim, conseguir por meia fina e não ficar coçando a perna ou desfiando a dita cuja antes de passar pelo portão, por saia e lembrar que não pode sentar no chão, passar maquiagem e dois minutos depois não coçar a cara e borrar tudo, deixar a unha crescer e não arranhar a palma da mão, essas coisas. As muito peladas, é porque elas tão peladas, ora! É quase uma aula de anatomia mórbida, depois, todo mundo olha para a nudez. (Ah, olha sim! Quer exemplo? Imagine um cara com uma super barriga, cultivada por séculos de cerveja. Imagine que ele passe na sua frente só de shortinho. Imaginou? Dá pra não olhar?) Mas, como eu dizia, eu não sou lésbica, então moças que gostam de moças, atirem pra outro lado, e não cheguem muito perto, que eu odeio gente muito perto de mim (com excelentes exceções). Ãhn? Se quiser provas, bom, mande um cara bonitinho vim falar comigo numa noite dessas e pede pra ele te contar o resultado...

PS: Poupem-me de comentários do tipo "mas você não é feia". Primeiro, porque eu não disse que eu era feia. Segundo porque esse tipo de comentário acaba deixando a entender exatamente o contrário. Terceiro, porque esse é o tipo de coisa que se ouve da avó "mas você não é feia, eu acho você a minha netinha mais bonita!...".

PS2: Obrigada pela força, sobre o lance do último post, via comments e extra-comments. O banco vai ter que me pagar, literalmente.

Comments: postado por: Romy Trinity6:12 PM


martes, diciembre 14, 2004

NEM TUDO TEM NOME


Existem coisas, notícias a serem contadas, que é difícil achar um título, um ambiente, uma cara para que se fale sem causar com isso um silência súbito, um virar coordenado de cabeças e olhos. Eu fui assaltada. O fato pesa, quem dirá as palavras. Eu fui roubada por dois caras e foi difícil contar isso pros meus amigos, pro meu pai, pra minha tia. O sorriso depois da frase não encaixa, parece doente. Dar risada então é sandice, porque realmente não tem graça.

O assalto, o roubo, também não tem contexto. Enquanto eu colocava o cartão na máquina do banco, não um quiosque, um banco mesmo, eu não pensava: agora é o momento ideal para entrar um assaltante em cena. Não, eu tinha pressa em pagar a fatura do cartão e ir ao cinema. Depois, na minha humilde opinião, não tinha contexto: Banco Banespa, agência iluminada, portas de vidro, em frente a uma estação de metrô na mais famosa avenida da cidade, oito e meia da noite. Isso não é clima de assalto! (Penso agora, porque deveria se fosse numa viela escura as duas da manhã? Então nessas condições é coerente o crime?)

Mas foi. Coloquei o cartão na máquina, um homem se aproxima, eu instintiva me afasto porque não gosto de ninguém muito perto de mim. Do outro lado, outro cara. A frase "olha, fica na moral que isso é um assalto, você vai tirar o dinheiro e agir na moral senão leva tiro" levou duas horas para ser codificada pelo meu cérebro e duas horas pra eu entender que é comigo. Mas dois segundos depois, quando o cara do lado falou "é isso aí, é um assalto, fica di boa", eu já tinha entendido. "Di boa", engraçado, a primeira vez que eu ouvi o termo foi numa circunstância totalmente diferente, tinha o mar, o céu...

Bom, mas ali não tinha mar, nem céu. Tinha dois caras. Dois indivíduos desconhecidos. Um, se afastou e ficou brincando noutro caixa. O outro, chegou mais perto, e me mandou sacar mil reais. Eu ri. Ia fazer o quê? Quase falei, ei, eu sou policial, da onde eu vou tirar mil reais?! Mas me calei e lembrei que ali, abaixo do meu busto, havia uma bolsa aberta e um distintivo brilhante encoberto por uma carteira preta. Ainda bem que eu não estava de decote. Dentro da bolsa havia também gás pimenta. Se eu pegasse o gás, poderia espirrar e correr. Se eu pegasse o gás, o distintivo cairia. Dois caras separados, só um receberia imediatamente o gás, o outro poderia correr. Isso sem falar na suposta arma. Fechei a bolsa, pela metade, o ziper emperrou. Gás mais escondido, carteira mais a mostra.

Saca mil reais. Tá bom. Saldo insuficiente. Saca quinhentos. Tá bom. Saldo insuficiente. Tira o saldo. Tira quatrocentos. Tá bom. Fim de notas. Outro caixa. Tira quatrocentos. Fim de notas. Outro caixa. Tira quatrocentos. Mas esse caixa não faz saque!. Outro caixa. Ninguém, absolutamente ninguém, entra no banco. Vai logo. Tá bom. Meu joelho direito treme, treme muito. Acho que vai quebrar, vou cair, o distintivo vai cair, aberto, no meio do banco. Eles vão me dar um tiro, ou, se não tiverem armados, vão me espancar até a morte. O banco pede senha, pede letras, pede data de nascimento. O banco pede tanta coisa, mas não tem tecla de pânico, não tem senha de roubo. Com uma arma apontada pra você, você lembra até o dia da crisma da sua avó. Saque concluído. Tira mil reais do cartão de crédito. Ri de novo (ei, eu sou policial, vc acha que eu tenho um limite de mil reais pra saque?). A fatura vence hoje e eu não paguei. Vai logo, mil reais. Tudo bem. Saldo induficiente. Tira 500. Tá bom. Saldo insuficiente. Tira o saldo. Saca 200. Tá bom. Saldo insuficiente. Tira 100, rápido. Tá. Transação não autorizada. Você tem celular? Não (não toca, por favor, não toca, não toca...). A gente vai sair, se sair atrás leva tiro, cê vai esperar cinco minutos, entendeu? Se sair depois cê tá ferrada!!! Vambora, vambora. E saem, nem correndo, andando, rápido, mas só andando. Eu penso "pronto, agora eu faço parte das estatísticas, já fui roubada". Dois minutos depois eu tiro o saldo. Sobraram 25 reais na conta. Três cheques pra cair. Meu joelho treme, treme muito, eu não consigo me mover, sair da posição. Agora, só agora, entra um cara no banco. Tem alguém lá fora?, pergunto eu. Ele diz que não, ninguém. Eu sorrio, eu sempre sorrio, queria arrancar meu sorriso e bater nele pra ele deixar de ser idiota.

Ligo para o 190. Fui roubada, levaram 400 reais, mas não levaram meu cartão. A voz do outro lado: "mas você é louca de tirar dinheiro a essa hora?!". Essa hora, oito e quarenta, hora em que a cultura ainda passa programação infantil, tem razão, a culpa é minha, desobedeci o toque de recolher. Eu não disse isso, eu só respondi que não tinha ido tirar dinheiro, tinha ido pagar uma conta. Levaram alguma coisa senhora? 400 reais e o saldo (negativo) da minha conta. Então é só a senhora ir a uma delegacia fazer um Boletim de Ocorrência. . Você não vai pedir a descrição deles? (Três anos trabalhando na polícia e eu ainda tenho esperança, como é que pode né?!!!). Claro, senhora. Eram dois morenos de que altura? (mental: eu falei que eram dois morenos?) Era um moreno de mais ou menos 1,70/80 e outro mais claro, branco, de 1,60, que ficava longe. O alto tava de jeans, sapato ou tenis preto, blusão de moleton, com capuz, preto ou azul marinho. O outro, de jeans escuro e camiseta amarela. Ambos BEM VESTIDOS (isso mesmo, não eram moleques de rua não, nem pobres, nem maltrapilhos, eram marmanjos filhosdaputa mesmo). A voz no telefone: dois morenos, um de jeans e blusão, outro de jeans e camiseta amarela. Pensei em corrigir, falar de novo, mas disse, é, é isso. Saíram pra que lado? Não sei, mas acho que em sentido à estação Trianom Masp. Onde? Pros lados da estação Trianom Masp, é só como eu sei me guiar aqui na Paulista. Avenida Paulista? (Agora que você pergunta onde??????). É. Tudo bem senhora, vamos passar para as viaturas, qualquer coisa, nós temos o seu número. Obrigada, disse eu (obrigada pelo quê?)

Meu joelho parou de tremer, mas minhas pernas não sabiam onde ir. Andei até a porta e saí correndo feito louca para o shopping, encontrar Scully. No caminho, achei que fosse chorar, quase chorei, mas respirei e me concentrei em andar, tinha que chegar num lugar seguro. Não conseguia pensar em nada, só em correr o quanto aguentasse, respirar, correr mais. No shopping, os seguranças e as recepcionistas me olham torto. Uma menina mal vestida, descabelada, com olhos arregalados, correndo. Fiquei com medo que me colocassem pra fora. Parei de correr, fiz cara de normal, ignorei meu jeans surrado de verdade (e não lavado em loja) e meu moleton todo sujo de caneta BIC. Sorri para a recepcionista, perguntei gaguejante sobre o cinema. Na escada rolante, prendi o cabelo. Na frente do cinema, liguei para a Scully, para o banco (atendida por uma mula que não sabia ouvir o cliente e sem o mínimo treinamente, para a palavra "assalto" ele respondia "BO", sempre, e eu desisti). Tomei 700 ml de fanta com 5g de açucar. Sentei. Relaxei. Quando a Scully chegou, eu já estava bem, "pronta pra outra, como diziam os antigos".

Depois do cinema, fui dormir na casa da minha tia. O mais próximo do ideal de mãe que eu conheço. Dormi na cama dela, com a gatinha aos pés, e uma caixa cheia de filhotes do lado da cama. Contei do assalto, ele ficou puta, quis bater no assaltante, ficou com medo que se fosse com ela, ela só tinha 30 reais. Ficou feliz que só levaram 400 reais. Chingou os caras de novo quando eu disse que não tinham levado o cartão. Se tivessem levado o cartão, o banco ressarcia o dinheiro. Deu danone pra mim. No dia seguinte, contei para o meu pai, ele perguntou se eu tinha aprendido a lição. É incrível o poder que as pessoas amadas têm de nos decepcionar. Fui na delegacia fazer o BO, falei que não tinham levado o cartão (burra, burra, burra). Liguei no banco, não vão ressarcir, porque não tem como provar e o cartão não foi subtraído. Fui no shopping, voltei pra casa, discuti com o meu pai por causa da mania que o brasileiro tem de ser esperto e desse negócio de "quebrar um galho porque é meu amigo", brinquei com meus ratos, tomei banho, dormi. Trabalharei três dias seguidos. Isso vai ser bom. Só quinta a tarde poderei ir passar nervoso no banco.

Eu não tenho comentário a fazer sobre isso. É um absurdo, mas ainda assim eu não odeio os bandidos, eu só quero nunca mais encontrá-los na minha frente. Mas eu quero que eles saibam que roubaram uma policial que nunca destratou nenhum, nem unzinho sequer, colega de profissão deles. Uma policial que teve de adiar por três anos um sonho pra fazer o que acreditava ser o certo. Uma policial que deve mais do que 2 anos de trabalho podem pagar (porque ela não ganha 200 reais por noite). Que roubaram uma policial que acreditava na humanidade, e que o ato deles maculou essa confiança de uma forma que pode ser esquecida, mas não desfeita. Eu já esqueci, mas ainda sinto.

Comments: postado por: Romy Trinity6:15 PM


martes, diciembre 07, 2004

ENQUANTO ISSO, ANTES (E DURANTE) A CONTINUAÇÃO...


"Cansado de correr na direção contrária, sem podium de chegada ou beijo de namorada, eu sou mais um cara..." (O tempo não pára, Cazuza)

A pergunta, claro, continua no ar. No ar não, na minha cabeça, em cada ato para um sentido qualquer, que parece tão contrário ao certo, que eu ainda não sei qual é. Mas acho que sinto. Acho que sei, e não vejo saída. É tudo tão incerto, tão tênue, tão enevoado. Como se a minha vida estivesse entrando nas Brumas que engoliram Avalon. E eu tão distante, como Morgana em Camelot. Tão perdida quanto, tão sozinha quanto, tão incompreendida quanto. Só que sem um Lancelote. Não que meu ideal de amor seja o de Morgana por Lancelote, mas pelo menos isso, pelo menos amar alguém, sei lá. Mas tenho os deuses, se não existem (e isso não me importa mais), me consolam. Até Murphy me faz rir.

Mas o tempo não pára, o mundo gira, a vida caminha. Passo por vez, sim, mas ainda assim, caminha. Tão lento que a gente não percebe, tão rápido que não dá pra pular fora. Então se eu caio, nada pára para que dê tempo de levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima. O jeito é ir levantando, sacodindo, tudo ao mesmo tempo. E não é tão ruim quanto parece porque se não dá tempo de levantar com calma, também não dá pra ficar parado chorando, porque aí a vida pára, e não pára de parar. E parar aqui, no ponto onde estou agora, seria como a morte pra mim. Não posso, não quero. Tenho que lutar.

Então eu levanto todos os dias procurando desafios, rostos, emoções. Sorvo cada mudança, cada novidade, com desespero. Olho, incrédula, o mundo , a minha vida, e ouço a peixinha "continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar". Vambora.

As aulas na faculdade acabaram. Ufa! Passei (com uma nota ridícula em lógica, mas passei). Tou feliz, mas queria que acabasse logo. Gosto de começo, gosto de fins, mas os meios me deprimem. Mas tenho as férias pra me animar, agora só ano que vem. Perdi a prova do RIC, semi-intencionalmente. Mas tô triste, porque a professora foi muito legal me ajudando e me sinto mal, sei lá. Por outro lado, não vou começar a fazer outra coisa que depois não vou querer terminar. É tô ficando com fobia de fazer coisas que durem mais do que quinze minutos. A sensação exata, pelo RIC, é de alívio. (Mas eu não precisava dessa hipocrisia toda, era só não ter feito, né?) Assim, São Judas, só ano que vem. (Fora os preparativos para os trotes nas férias).

Deixa eu falar um pouco de coisas boas: sábado agora foi festa de aniversário do Fabz. e da Marc. num bar na Turiassú. Muito legal!!! O bar fica na rua Turiassú, nº 806, São Paulo/ SP (não, isso não é um anúncio pago). É todo decorado como se fosse um bar/lanchonete anos 50/60, com pista de dança e quase sempre uma banda tocando. Tocando o quê? Bolabariburum bulabariburum turú, for you, turú for you, turú... Sabe, música tipo Elvis, de dançar, rodar feito louco pela pista. Mais legal que forró! Eu achei incrível, porque quando nasci, bailinhos já tinham saído de época, e lá nesse bar, eu me senti como num filme, sei lá. Me deu até vontade de usar vestido branco de bolinhas pretas!. Muito louco!!! Pena que eu não lembro o nome (acho que chama "The Clock Rock Bar"). Quem puder ir, vá. Eu só não viro assídua frequentadora porque moro muito longe, não tenho carro nem companhia que aguente noitada de noite inteira (da meia noite às seis, mesmo sem carro, pra rodar a cidade a pé, encostar no boteco, jogar conversa fora até o sol raiar - quem se habilita?). Mas vou fazer aulas de dança de salão só pra garantir. Quero ver quem vai nesse bar na mesma semana em que assistiu "Dança Comigo" e não se matricula na primeira escola de dança que encontrar...

Aí, saindo da festa, lá pelas 3 da matina (o bar quase vazio), cheguei na rodoviária do Tietê as 4. Missão: recepcionar Áurea Maria que chegaria do Rio para passar 20 dias na capital paulista, conhecendo a cidade. Eu acho engraçado como as pessoas (incluindo eu, no começo) tem dificuldade pra entender que ela veio conhecer a cidade. Simples assim. Se ela dissesse que veio pra abrir, sei lá, um ponto de tráfego, tenho certeza que não ouviria tantos "como assim?", como ouviu no domingo. O ônibus atrasou e eu tentei dormir um pouco no chão da rodoviária (num lugar na plataforma de desembarque onde uma galera tava deitada também esperando o ônibus chegar). Gostei, me senti livre (estranho, não?). Andamos o dia inteiro, meu pé encheu de bolhas, mas valeu a pena. Tive a oportuidade de conhecer um pouco mais a Áurea. Como eu odeio rasgação de seda não vou ficar dizendo que ela é simpática, bonita, bla bla bla. Mas tenho que dizer que é uma pessoa única, de uma simplicidade, de uma pureza (não num sentido ingênuo, infantil ou debilóide do termo), um espírito único. Uma raridade com um senso artístico e cultural incrível. Andamos pela única parte da cidade que eu conheço bem, meu quintal praticamente - o centro velho. Andamos, conversamos, nos esquivamos dos tarados, fui apontando as coisas que eu sabia o nome, os centros culturais onde nunca tinha entrado. Aprendi tanto da cidade que me pergunto porque não faço isso mais vezes (só que tendo dormido, de preferência). Depois de um banho e uma cochilada na rodoviária (eu, que Áurea já estava instalada), fechamos a noite com Almodovar no Belas Artes, e mesmo eu não tendo gostado do filme, foi legal subir e descer a Consolação a pé.

Dormi segunda quase o dia todo, perdi a prova do RIC, e depois fomos, eu e o Spacey, a caçar nossa professora querida. Ficamos mais de uma hora rodando a PUC. Não achamos a dita cuja, mas valeu a experiência. Principalmente porque eu descobri que o que eu faço não é faculdade, é escolinha. Desculpem os estudantes de certas faculdades particulares, mas não dá pra comparar o ambiente de uma PUC, UNIFESP, USP, UNESP, UNICAMP, MACKENZIE com o clima que rola na UNIP, SÃO JUDAS, UNINOVE, etc. Dos prédios às roupas, tudo é diferente. Se eu fosse o empregador, iria preferir um filho da PUC, com certeza. Mas o caso é que depois da nossa empreitada, paramos no Sujinho (olha eu na Consolação, o centro é minha casa mesmo...), tomamos umas cervejas e ficamos conversando. Sabe que foi muito bom? Foi, sei lá, relaxante. E foi uma conversa, um fala, outro ouve, outro fala, um escuta, e vice versa. Gostei, acho que estava precisando de algo assim...

E aí, pra fechar esse pequeno post, neste exato momento meu pai me liga dizendo que chegou um telegrama urgente pra eu comparecer na Nossa Caixa, apresentar os documentos e participar do sorteio pra comprar um apartamento (financiado só para policiais). Eu não quero, não quero uma dívida pra mais dez anos. Quero finalmente me sentir livre, poder fazer o que der na telha sem deixar nada por terminar. Tenho que afastar esse bichinho do "mas é uma casa, pode ser sua casa, é uma oportunidade que vc vai deixar escapar e bla bla bla". Tenho que dizer que não para o meu pai, que eu quero a liberdade, que gosto de fazer as coisas direitinho, mas não sei como contar. Sugestões, conselhos, qualquer coisa, pode falar, eu ouço. Mas sei que meu coração já sabe a resposta:

- Com certeza, a USP é meu destino. Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...

Comments: postado por: Romy Trinity3:41 PM


miércoles, diciembre 01, 2004

Cito Rebs: "E então eu dormi por horas e horas.

E acordei vazia
."



WALKING


CAPÍTULO 1

Então você aprende que existe o tempo, existe você, um acontecimento, depois outro, e isso é a vida. E você sabe o que virá: depois da terceira vem a quarta, depois da quarta a quinta, a sexta, a sétima série e, finalmente, aulas de química. Desde a segunda série você sabe o que é gostar de meninos que nunca vão gostar de você, e aprende que por mais chato ou triste que isso possa ser, uma hora as aulas acabam, você chegará em casa e, misturando produtos de limpeza, descobrirá algo incrível.

Na quinta série o "o menino mais bonito também era o mais rico" e te faria de escravo se você não tivesse descoberto, numa tarde qualquer, que quando ele fosse gramde, casado e cheio de filhos, você seria uma importante, esquisita e solitária cientista de um projeto megarevolucionário. Quem precisa de meninos quando se tem um mini laboratório? Na sétima série você tem aulas de química e é absurdamente feliz com isso. Na sétima série você não tem sonhos: tem certezas. A USP é o destino dourado que te espera.

Mas o tal do tempo que existe, passa. O ano vira e surpreendentemente depois da sétima vem a oitava série, e não a USP como seria óbvio. O destino (que ainda não tinha nem nome) vem com opções, escolhas. Com cada opção a chance de uma nova escolas, sem panelinhas nem preconceitos, um caminho construído por você mesma. Entre Nutrição e Eletrônica, por que não Química? Nutrição, sua primeira escolha, seu primeiro sucesso.


CAPÍTULO 2

Daquele x em diante, o tempo e o destino tornaram-se aliados. E o tempo trazia escolhas, que trazia tempo, mais escolhas, mais opções... Tanta coisa mudou, tanta coisa a mesma coisa. Você já sabe a diferença entre meninos bonitos e O menino bonito. Não quer mais todos, só aquele. Mas ainda eram meninos que nunca iriam gostar de você. Depois de um ano, o seu menino bonito é namorado da sua amiga, não por culpa dela, nem dele. No ano seguinte você escolhe (e jamais admitirá que foi escolha) outro menino pra se apaixonar. O mais bonito, inteligente, sorridente, divertido. Lindo, suave, inatingível. A primeira escolha a te deixar sem opções.

Não vamos falar dos três anos seguintes. Anos completos, complexos, de luz, câmera, ação, lágrimas, palavras, amigas, amigos. Três anos, cada dia um novo futuro, um novo céu, um novo mar, o mesmo rosto como horizonte. Anos tão felizes que dói lembrar. Três anos de um único amor (será que era isso?), tantos sonhos, tantos planos, nenhuma certeza e de um único beijo com gosto de vinho sem sentimento algum.


CAPÍTULO 3

Fim de um ato. Tempo e Destino entram novamente em cena. Perguntam: E agora? USP claro, você responde. Sorrindo, perguntam de novo: USP. Agora, o quê?

O quê, hein? A química não é mais só fenolftaleína com amido. É mais do que um líquido azul que aquecido fica incolor e amarelo enquanto resfria. A química era mais, muito mais, mas parecia tão pouco perto da bioquímica, do sangue, do palco, dos filmes, da luta estudantil. Tão apagada em contraste à luz do palco. Tão inaudível perto das batidas do coração. Tão desimportante frente as injustiças do mundo. Naquela hora você queria química e mais que química. USP sim, mas USP o quê?

Tempo e destino te encaram solenes (vitoriosos talvez) e te entregam uma caixa bordô escuro, com paredes internas de veludo amarelo. Dentro, uma luz azul que não dava pra olhar. Mas era liberdade. Liberdade. Como ou o quê ela é, você não consegue explicar, mas ainda assim ela é incrível: vicia na primeira vez, multiplica a cada uso. Mais que inexplicável. Mágica.

E num passe de mágica, cinco anos se passam. Cinco anos também sem comentários, basta dizer que foram todos livres, completos e nem tão complexos. Sem rostos no horizonte que não faziam falta porque todas as noites a liberdade lhe beijava a fronte.


CAPÍTULO 4

Chegamos então ao hoje, aqui e agora. Você não tem mais certezas, não tem ainda a resposta para aquela pergunta, mas, de alguma forma, uma estranha necessidade te aponta o caminho: Medicina. Um caminho que você quer percorrer com, pelo menos, uma paixão: a Arte.

Você, mais uma vez, sente o caminho, consegue enxergar a opção mais iluminada, se empolga com o prazer do caminhar. Sorriso. Seria um sorriso perfeito se você não estivesse sozinha? Por quê? Por quê, se você não sabe o que é companhia e ainda assim espera (exige) paixão para que seja companhia? Por quê, (se de) tantos beijos, tantos gostos, e nenhum com gosto de sentimento algum? Por que faz falta o que nunca fez parte? Por que "essa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi?"

Sem respostas, parece que por um tempo se esquece, posterga, abandona, não importa o nome, você sai do caminho. Sai do caminho, mas continua a caminhar, só não sabe pra onde. Caminhando descobre mais e mais dúvidas que continuam sempre sem respostas. "Continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar...", diz a peixinha do Nemo. E você continua. Continua. Até que, de repente, pára e pergunta: MAS O QUE EU ESTOU FAZENDO DA MINHA VIDA?

Pânico. Como dar o próximo passo assim?


CAPÍTULO 5

Acalme-se, respire, feche os olhos. Agora, open your eyes, e veja. Essa não é a SUA vida. Esta é a MINHA vida, a minha história. Você, você mesmo, pode rir aliviado, voltar pra casa, continuar o seu caminho. Seja feliz, cada um sabe da sua vida (só eu que não sei da minha). Pode ir, sério mesmo, ficara tudo bem. Você não é tão inocente que não tenha percebido que não era de você que estávamos falando, nem tão culpado que mereça uma dúvida desse tamanho a lhe atormentar as noites, e os dias de sono. Foi maldade da minha parte, mas, se você tem resposta pra essa pergunta ou consegue não se afetar pela simples existência dela, meu amigo, eu te invejo porque penso que você é feliz.

Não que eu não o seja. Mas neste minuto, eu estou parada numa ponte qualquer pensando: O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI? O QUE EU ESTOU FAZENDO DA MINHA VIDA? MAS SERÁ QUE EU TÔ VIVENDO A VIDA?


... continua.

Comments: postado por: Romy Trinity5:40 PM



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